ARTIGO DE OPINIÃO: O futuro da educação básica em São José dos Campos


Município celebra bons resultados no SARESP, mas o excesso de digitalização, o sucateamento de equipamentos e a necessidade de valorização docente acendem o alerta sobre os próximos passos da rede pública.
São José dos Campos tem se consolidado como um polo de bons resultados no ensino fundamental. Os dados do SARESP de 2025 ilustram com clareza o protagonismo joseense frente a outros municípios paulistas com mais de 500 mil habitantes. No entanto, por trás das estatísticas animadoras, os bastidores das salas de aula revelam que esses índices poderiam atingir patamares ainda mais elevados se houvesse um alinhamento mais apurado entre as políticas públicas e a realidade diária das escolas.
O dilema digital e o tempo didático
A atual administração municipal, em compasso com as diretrizes do governo estadual, abraçou a adoção de práticas educacionais digitais em larga escala. Plataformas como Elefante Letrado, Matific e PLEI tornaram-se presenças constantes nas escolas, com professores sendo orientados a incorporar esses recursos rotineiramente.
O efeito colateral dessa política, porém, é a substituição do precioso tempo didático — momento essencial para a intervenção pedagógica qualificada — por uma rotina digital apenas assistida pelo docente. O que deveria figurar como uma ferramenta complementar está, gradativamente, assumindo o protagonismo do espaço escolar.
Curiosamente, essa adoção massiva vai na contramão de tendências educacionais globais recentes. Países escandinavos, historicamente no topo dos rankings do PISA, acenderam o sinal de alerta ao observarem declínios no rendimento de seus estudantes após intensas políticas de digitalização. Amparadas em estudos neurocientíficos, essas nações iniciaram um movimento de retorno aos livros e materiais analógicos, buscando resgatar o foco e reverter a queda intelectual.
O fator humano e a barreira da infraestrutura
Embora a realidade de São José dos Campos possua suas particularidades, há lições iminentes a serem absorvidas das experiências europeias. A educação municipal mantém seu status de referência graças, primordialmente, ao desdobramento de seus professores. São profissionais que se esforçam diariamente para garantir o aprendizado real, enfrentando não apenas a redução do tempo de ensino direto, mas também a barreira da infraestrutura. O uso de equipamentos obsoletos, alguns com mais de uma década de funcionamento, exige uma dose extra de esforço, tempo e paciência de toda a comunidade escolar.
Diante desse cenário, o verdadeiro salto de qualidade para a educação vale-paraibana reside no investimento em pessoas. O foco prioritário deve ser a formação contínua de professores alfabetizadores, garantindo que especialistas atuem na base dos anos iniciais — 1º e 2º anos — para assegurar a alfabetização na idade certa.
Somada a isso, urge a necessidade de apoio estrutural nas salas de aula, com assistentes preparados para ajudar na mediação de questões atitudinais e comportamentais — um desafio crescente diante das mudanças no perfil dos alunos ao longo da última década.
Interação humanizada versus produtos de mercado
A viabilidade dessa reestruturação passa por um modelo que privilegie a interação humana em detrimento da adoção acrítica de produtos mercadológicos, que devem servir apenas como apoio. Recentemente, o município investiu R$ 20 milhões no MAJOG, um recurso analógico gamificado para o ensino de matemática nos anos iniciais. Questiona-se, no entanto, se tal montante não traria um impacto mais estrutural e duradouro se fosse redirecionado para a valorização e o apoio aos profissionais da educação, além da urgente renovação do parque tecnológico das escolas.
Sem dúvida, São José dos Campos já desponta como uma potência educacional no Brasil. Contudo, para transcender as fronteiras nacionais e consolidar-se como uma referência mundial, a cidade demanda políticas públicas mais robustas e focadas na sala de aula real. Uma educação de excelência sistêmica exige o engajamento em ações que unam o desenvolvimento intelectual ao lazer, à saúde e à qualidade de vida de toda a comunidade escolar.
Prof. Valdemir Pereira
Diretor do SindServ-SJC
Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de São José dos Campos
Endereço
Rua Áurea, 29 / Rua Ana Bonadio, 43
Centro - São José dos Campos/SP
Telefone fixo
(12) 3941-3569 | 3941-2615
