Para a CUT, é fundamental as autoridades acordarem para a necessidade
de regulamentar, o mais rápido possÃvel, a Convenção 151 da OIT
(Organização Internacional do Trabalho), dispositivo legal que deve
atingir mais de 1 milhão de servidores dos três nÃveis da Federação e
das três esferas de poder.
O Brasil ratificou a 151 há um ano, mas, até agora, nossa legislação
ainda não se adequou às normas da convenção, que garantem aos
trabalhadores do setor público sindicalização, exercÃcio sindical,
negociação salarial e do contrato de trabalho. A inércia do poder
público, no entanto, já se estende há mais de 23 anos — consta na
Constituição Federal, promulgada em 1988, itens como exercÃcio da
prática sindical, direito de greve e negociação no setor público, que
também não foram regulamentados.
A falta de regulamentação da 151 abre espaço para o Judiciário
legislar, e isso nem sempre acontece em benefÃcio do trabalhador. Uma
regra provisória do Supremo Tribunal Federal (STF), por exemplo, sujeita
o servidor público à mesma lei que regula a greve do setor privado,
evidentemente sem as contrapartidas a que os celetistas têm direito,
como data-base, dissÃdio coletivo, negociação coletiva etc.
Para a CUT, é inadmissÃvel que, depois de tantas horas de reuniões no
Grupo de Trabalho (GT), comandado pelo Ministério do Planejamento,
nenhum projeto de lei tenha sido encaminhado ao Congresso Nacional. Esse
GT, que deveria definir a regulamentação da 151, a partir do tripé
negociação coletiva no setor público, direito de greve e liberação de
dirigente sindical, foi atropelado por outro grupo de discussão, criado
no âmbito — e com o apoio — do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE)
para discutir o mesmo assunto.
Durante três anos, a CUT se esforçou para convencer o governo da
necessidade de garantir a autonomia sindical e a participação social.
Nossa luta foi no sentido de assegurar que a negociação no setor público
passasse a ser fruto de um processo permanente de discussão e
monitoramento, com vistas à valorização da função do servidor e da
melhora da qualidade do serviço público.
Deixamos claro que é preciso garantir os direitos dos servidores, mas
com a consciência e responsabilidade de quem sabe que essa luta deve
ser legitimada pela sociedade. Foi com esse espÃrito que a central
apresentou a proposta de incorporar no PL a participação da sociedade
civil nos observatórios de relações de trabalho.
Infelizmente, o GT criado pelas outras centrais sindicais no MTE
embaralhou o processo, que já vinha bastante adiantado. E o que é mais
grave: as premissas defendidas por algumas centrais pioram a situação.
Eles querem incluir na regulamentação da 151 a unicidade sindical e o
imposto sindical no setor público, na contramão de tudo aquilo que
defendemos.
Apesar desse imbróglio, este ano a CUT tentou retomar a discussão com
o Ministério do Planejamento, na tentativa de destravar um último ponto
que havia emperrado as discussões: o direito de greve dos contingentes
civis armados. O governo mostrou-se irredutÃvel na determinação de
proibir a greve desse setor. A CUT e os sindicatos que os representam
procuraram mostrar que essa alternativa seria inconstitucional, uma vez
que a Constituição veda apenas a greve dos policiais militares e das
Forças Armadas, permitindo expressamente a dos outros servidores.
O impasse continua. Precisamos convencer os técnicos do governo que
basta deixar claro no texto que é proibido usar arma de fogo em um
movimento por essência pacÃfico como a greve. Aliás, vários paÃses do
mundo já adotaram legislação nesse sentido.
Temos consciência de que o documento do GT, que deveria servir de
base para o PL que regulamentará a convenção, não sairá exatamente como
quer a CUT e até mesmo como querem as demais centrais, os sindicatos do
setor, ou o governo. Isso é natural em um processo de negociação.
Sabemos também que o PL ainda será amplamente discutido na Câmara e no
Senado, onde pode receber emendas e ser aperfeiçoado, antes de ir para
sansão presidencial.
Não podemos esquecer que, no inÃcio do próximo ano, a OIT deve
produzir um relatório sobre a implementação da convenção 151 no paÃs, e
nesse ritmo acabaremos com uma nota vermelha no boletim. O tempo urge.
Por Artur Henrique, presidente da CUT
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